
Promover a valorização do patrimônio histórico-cultural de Irati por meio da construção de itinerários urbanos que articulem ensino, pesquisa e extensão. Esse é o objetivo do projeto “Percursos de Memória”, que deu início às suas atividades, nesta semana, no Câmpus de Irati da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). A iniciativa une acadêmicos e docentes dos cursos de História e Turismo na busca de revelar narrativas locais que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas no cotidiano da cidade.
Segundo a professora Nadia Maria Guariza, coordenadora do projeto, a inspiração vem de experiências realizadas em outras cidades. “Eu me espelhei em exemplos como o de Curitiba, que tem vários percursos que tentam trazer memórias que geralmente não são tão oficiais na cidade”, destaca a docente.
Para tanto, serão feitos levantamentos documentais, pesquisas de campo, entrevistas, mapeamento de bens patrimoniais e elaboração de roteiros de memória com potencial turístico e educativo em Irati.
A equipe multidisciplinar que vai atuar na iniciativa conta ainda com os professores Alexandra Lourenço, Lucas Kosinski e Vânia Vaz, do Departamento de História (Dehis/I), e Lucas Antoszczyszyn, do Departamento de Turismo (Detur).
Vivências paranaenses
Para fundamentar as ações práticas, o projeto também vai promover uma série de palestras e mesas-redondas com pesquisadores e profissionais da área. A primeira delas aconteceu na quarta-feira (15), com participantes que desenvolveram ações semelhantes em outras cidades.
Um deles foi o professor Sandro Fernandes, que apresentou o “Percurso Afro Curitiba”. Com o apoio do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac) e influenciado pelo trabalho de diferentes pessoas, o projeto busca identificar e divulgar locais relacionados à presença negra na capital do estado. Em três anos, mais de 20 percursos já foram realizados, destacando a história de espaços como a Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito.
“Falar da presença afro-brasileira em Curitiba é fundamental porque é uma forma de enfrentar o racismo”, pontua Sandro. “A importância é justamente tirar da invisibilidade pessoas negras, tanto no passado quanto atualmente, porque a nossa abordagem não fica restrita à história a partir do século XVIII. Ela chega até agora com a capoeira, com a escola de samba, com os grafiteiros, com o rap – tudo isso está presente no nosso percurso”, reforça o docente.
A experiência prática em espaços culturais foi abordada por Felipe Valente Zem, responsável pelas ações educativas do Memorial Paranista. Localizado dentro do Parque São Lourenço, o museu promove visitas guiadas gratuitas que articulam história, artes visuais e meio ambiente, incluindo atividades como oficinas de escultura para crianças. “É uma experiência riquíssima porque a gente acaba trabalhando com públicos que, geralmente, as instituições mais formais de ensino acabam não acessando”, comenta o produtor cultural.
Ainda segundo Felipe, tratar de questões relativas ao patrimônio, à arte e à cultura desperta no público uma nova percepção sobre o cotidiano urbano. “[Com essas visitas] o pessoal começa também a viver e aprender a ver a cidade com outros olhos, com um olhar mais analítico e interessado. Porque às vezes o que falta é ter esses momentos para você despertar o olhar do público”, pondera Felipe.
Já a fotógrafa Larissa Guimarães trouxe para o debate a preservação da paisagem arquitetônica interiorana. Natural de Curitiba, foi nas raízes familiares em Prudentópolis que ela encontrou o tema para um trabalho documental que já dura mais de dez anos e que agora vai virar livro. Premiadas no Festival Internacional de Fotografia de Paraty, em 2020, as imagens “Ukrainos” retratam os descendentes de imigrantes, seus costumes e, em especial, as suas construções históricas de madeira.
“Há dez anos, minha família tinha uma casa em Prudentópolis e na nossa rua tinha uma casa ucraniana de madeira, que eu fui lá pedir para fotografar. Quando eu cheguei, eles me falaram que seria realmente legal fazer isso, pois aquela casa ia ser demolida”, conta Larissa. “Foi aí que começou esse trabalho e que eu passei a entender que essas casas, em um determinado momento, iam desaparecer, e que muitas já tinham desaparecido. São casas que têm cupim, que o custo de manutenção é elevado. Então, eles acabam construindo casas de alvenaria e se desfazendo das antigas”, detalha.
Para ela, é extremamente necessário conservar registros culturais como esses. “Preservar a memória de um povo é honrar a saga dos nossos antepassados e tudo o que eles passaram pra nós estarmos aqui”, enfatiza.
Cronograma de atividades
Na próxima semana, no dia 22, o “Percursos de Memória” realiza uma nova palestra no Câmpus de Irati da Unicentro. Dessa vez, a professora Nadia trará uma discussão sobre os “lugares de memória”, conceito do historiador francês Pierre Nora que é base para o projeto. O encontro será às 19h, no Auditório do Bloco I (Antigo PDE).
No dia 6 de maio, no mesmo horário e local, está prevista uma conferência com a professora Alexandra Lourenço sobre as memórias da violência na região centro-sul do Paraná.
Após discutir experiências e os referenciais teóricos, os acadêmicos do grupo vão começar a pesquisa de campo sobre quais são os percursos possíveis de serem implementados na cidade. Como pondera Nadia, o objetivo é fortalecer a identidade local e aproximar a universidade e a comunidade.
“A ideia é construir esses itinerários e estabelecer parcerias com órgãos públicos para que os roteiros sejam utilizados em escolas e no atendimento ao público”, afirma a coordenadora.
Foto em destaque: Cedoc Irati
Por Wyllian Correa
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